Publicado em: O Dia

A primeira decisão a ser tomada pelo casal tem a ver com: manter suas alternativas de carreira abertas. Por isso, não vejo vantagem clara em encerrar precocemente a carreira de um dos cônjuges com o nascimento dos filhos

Muito se discute sobre o avanço das mulheres em posições gerenciais, igualdade salarial entre os gêneros, preconceito no mercado de trabalho, as dificuldades no dia a dia, o machismo, o equilíbrio entre o papel de mãe e profissional e tantas outras questões relacionadas com o desafio de suceder na carreira, contra todas as dificuldades extras que se impõem para as mulheres na vida corporativa.

Mas há uma questão igualmente importante, que não recebe a atenção devida nos debates, e que é responsável por destruir os sonhos de carreira de muitas mulheres ao longo dos anos: Qual carreira é a mais importante no casal, a da mulher ou a do homem? “As duas” seria a resposta mais óbvia, mas a questão é mais complexa do que isso. Tampouco é a do homem, ao contrário do que é decidido pela maioria dos casais.

Minha resposta é: a estratégica combinação das duas carreiras. Isso não é igual a dar o mesmo valor às duas, mas sim traçar uma estratégia de longo prazo, que aproveite o melhor momento, perfil e oportunidades que possam aparecer para cada um, e tomar decisões que avancem na direção do objetivo traçado.

 Na maioria das vezes, a decisão sobre a mulher abandonar sua carreira “em proveito do casal” surge com o primeiro filho. É feita uma comparação entre os custos de creche ou babá com o salário atual da mulher e como a economia não é tão representativa, ainda mais considerando o efeito positivo da presença materna em casa, o marido promete “correr atrás” para compensar parte dessas perdas e a decisão se torna mais fácil.

O problema dessa “conta simples” é que o valor que a mulher produziria ao longo de sua futura carreira não é levado em conta. Também não é considerada a força que a mulher com emprego traria para a posição do casal, em futuras decisões de carreira. Homens com filhos recém-nascidos e mulher dona de casa não podem ter sonhos, não podem empreender, precisam “garantir o leite”, engolindo quantos sapos forem necessários.

Como regra básica da negociação, temos que quem possui alternativas mais fortes detém o poder no processo negocial. Então, a primeira decisão a ser tomada pelo casal tem a ver com: manter suas alternativas de carreira abertas. Por isso, não vejo vantagem clara em encerrar precocemente a carreira de um dos cônjuges com o nascimento dos filhos.

Outra questão importante é que as decisões não precisam necessariamente ser tomadas em prol de quem tem o salário mais alto, mas sim considerar outros fatores, como estabilidade do emprego, nível de satisfação atual, aptidão do outro para o empreendedorismo, capacidade de recolocação, dentre outros fatores.

Ao falar abertamente sobre isso, seguindo outro princípio da negociação que é o da colaboração e comunicação para criar valor, o casal pode descobrir caminhos que não seriam imaginados se tomassem a decisão com bases simplistas.

Aproveite o clima do Dia Internacional da Mulher e provoque essa discussão em casa. Confie no poder de criatividade de um casal em que ambos se respeitam e desejam o melhor um para o outro. Seus sonhos, sua conta bancária e a felicidade futura da família agradecem.

Breno Paquelet é professor e especialista em Negociação